Executivos precisarão equilibrar dois movimentos simultâneos: manter a organização competitiva hoje enquanto constroem condições para que ela continue relevante nas próximas décadas
Por Thâmara Kaoru – 16/07/2026 06h00 – Revista Exame
Durante muito tempo, um bom líder era aquele que tinha respostas: sabia para onde a empresa deveria ir, distribuía tarefas, acompanhava indicadores e garantia que o planejamento fosse executado. Mas, para o líder do futuro, isso não será suficiente.
Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 86% dos empregadores esperam que a inteligência artificial e as tecnologias de processamento de informações transformem seus negócios até 2030. Se o ambiente de trabalho mudar nesta velocidade, a liderança também precisará mudar.
Para Gustavo Donato, vice-presidente de Conhecimento e Aprendizagem da Fundação Dom Cabral, essa transformação vai muito além da adoção de novas ferramentas. Ela redefine o próprio papel do líder.
“Com o advento das novas tecnologias, com a infinidade de dados disponíveis e a riqueza das inúmeras ferramentas de inteligência artificial, imagine como essa liderança tem que se transformar”, diz o especialista. “O líder deixa de ser meramente um gestor de ritos e, na minha opinião, passa a ser muito mais um gestor de estratégias, de portfólios de presente e de futuro”, afirma.
Capacidade de olhar para o presente e o futuro
Em vez de concentrar esforços apenas na eficiência operacional e no cumprimento de metas, os executivos precisarão equilibrar dois movimentos: manter a organização competitiva hoje enquanto constroem condições para que ela continue relevante nas próximas décadas. Essa capacidade é o que Donato chama de lógica ambidestra.
“A liderança tem que equilibrar o presente — a entrega de resultados, a gestão, a responsabilidade, o accountability, gente e cultura —com a pavimentação do futuro.”
Isso significa que será cada vez mais difícil desenhar um plano detalhado para os próximos cinco ou dez anos. Com as mudanças aceleradas, o que contará não será a precisão das previsões, mas a adaptação. E é nesse contexto que entra o foresight estratégico.
Segundo o especialista, em vez de tentar prever exatamente o futuro, a proposta é acompanhar grandes tendências, construir cenários possíveis e preparar a organização para responder a eles.
“Prever o futuro não existe, mas importante olhar grandes tendências para ampliar nossa capacidade antecipatória e criar cenários de futuros possíveis, desejáveis, de onde eu quero estar em termos de carreira, vida e onde quero posicionar minha organização e meus negócios. E, com esses cenários lá na frente, trazer para o presente e pensar em estratégias. Empresas que possuem essa disciplina na governança e nas diretorias executivas são as que têm maior sucesso”, completa.
IA muda a forma de liderarP
Se a velocidade das mudanças já exigia adaptação, a popularização da inteligência artificial tornou essa necessidade ainda mais urgente. Na avaliação do executivo, dificilmente haverá espaço para lideranças que não desenvolvam competências relacionadas a dados, tecnologia e IA.
Isso, porém, não significa colocar a tecnologia no centro das decisões.
“Tecnologia, dados e IA são meios, não são fim. O foco da liderança precisa ser o valor para o negócio.”
A tecnologia deve servir para aumentar produtividade, apoiar decisões baseadas em evidências e, em um estágio mais avançado, tornar-se parte da estratégia e dos próprios produtos e serviços oferecidos pela empresa. Mas Donato alerta que os executivos não podem transferir à tecnologia atividades que dependem de reflexão, senso crítico e julgamento humano.
“Eu não tenho medo nenhum da inteligência artificial. O que me gera mais medo é que nós estamos usando menos a inteligência natural. A IA é muito prática. Não há como competir com a sua capacidade de processamento de dados, de síntese, de geração de novos conteúdos compilando diversas fontes. Isso não tem como competir”, disse. “Mas o que tem ocorrido é que executivos, principalmente os tomadores de decisão, como CEOs e até mesmo conselheiros, não estão entendendo até onde devem usar isso com sabedoria para não reduzir sua capacidade cognitiva, o pensar verdadeiro.”
Otto Scharmer, professor sênior na MIT Sloan School of Management e cofundador do Presencing Institute, também cita essa preocupação. Em artigo, o especialista diz que o medo comum em relação à IA é de que as máquinas estão se tornando mais parecidas com os humanos.
“Nós estamos nos tornando mais parecidos com máquinas — não fisicamente, mas epistemologicamente: vemos o pensamento como computação, o aprendizado como processamento de dados, a criatividade como recombinação, a tomada de decisões como otimização e o eu humano como algoritmo”.
Para Scharmer, liderar na era da IA é a tarefa de cultivar uma capacidade generativa que nenhuma máquina consegue replicar.
Competências humanas ganharão protagonismo
Para Donato, é preciso dar atenção às competências exclusivamente humanas. Isso inclui autoconhecimento, curiosidade, repertório, capacidade de conectar diferentes áreas do conhecimento e disposição para aprender continuamente.
Segundo o especialista, não há muitas lideranças fazendo certos questionamentos, mas as que despontam certamente o fazem. Elas se perguntam como estão em termos de autoconhecimento, quais são seus gaps, como se reinventar para aliar performance, para engajar, para mobilizar os times e para se desenvolver.
“É um nível de humanidade ampliada em relação àquela liderança do passado, que era muito focada nos ritos e não enxergava direito. Esse autoconhecimento com humanidade ampliada está faltando na liderança atual e, a meu ver, é a liderança do futuro.”
Também será preciso desenvolver uma característica essencial: a capacidade de adaptação. Ou seja, ser um líder que sabe ler contexto, se adaptar às novas circunstâncias, tomar decisões em ambientes de incerteza e ambiguidade e exercitar o seu lifelong learning de maneira verdadeira.
Essa adaptação vale tanto para organizações quanto para as próprias carreiras. “Essa nova liderança tem que entender que ter essa mentalidade ambidestra, essa mentalidade de jogo infinito, de presente e futuro, é, na realidade, conseguir se reinventar, tanto na carreira como na organização. Isso pressupõe muita disciplina”, diz Donato, que também é professor na Fundação Dom Cabral, instituição que completa 50 anos.
Ele acredita que ampliar repertório passa por atividades que, à primeira vista, parecem distantes do ambiente corporativo. Natureza, esportes, arte e momentos de reflexão ajudam a construir novas perspectivas e favorecem decisões mais criativas.
Essa visão muda a forma de liderar pessoas. Se antes o gestor era visto como alguém que controlava processos e subordinados, agora sua principal missão passa a ser construir equipes capazes de aprender, colaborar e responder rapidamente a desafios inéditos.
“O próprio Fórum Econômico Mundial estima que, na década de 2030 a 2040, a maioria dos problemas que as lideranças corporativas vão enfrentar não são nem imagináveis hoje. Se o problema é novo, não existe ferramenta pronta para resolver. Não existe time preparado ou já formado para endereçar. Então, o ponto é: essa liderança ela vai ter que entender que errar e aprender rápido de maneira ágil é a regra do jogo.”
Mais do que controlar pessoas, caberá ao líder criar um ambiente em que profissionais se sintam seguros para experimentar, aprender e inovar. “Como mudança é a única certeza, quem tiver disciplina para se adaptar, se preparar e explorar acho que conseguirá enfrentará o que vier. Mas quem não tiver muita disciplina, não se preparar e não se aprofundar, vai sofrer muito.”
Sou José Ricardo Rodrigues e estou aqui para ajudá-lo na construção do seu Planejamento Estratégico aliando aos modelos tradicionais, técnicas de Coaching e Inteligência Emocional.[...]
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